Setor químico tem primeira emissão verde com Sabará

Valor Econômico

12/09/2019 – 05:00
Por Vanessa Adach

 Uma pequena emissão de debêntures fechada na semana passada trouxe algumas boas novas para o mercado de capitais local. A Sabará, empresa química que fornece insumos para o setor de saneamento e tratamento de água, conseguiu captar R$ 20 milhões com uma emissão verde, ou seja, títulos de dívida que levantam recursos para projetos com benefícios ambientais.

Foi a primeira vez que uma empresa do setor químico no país conseguiu atender a critérios verdes. Além disso, a operação da Sabará indica uma abertura para emissões com selo ambiental de empresas de menor porte no mercado local de dívida.

Para a Sabará, a emissão teve um significado adicional. Foi a primeira vez que a empresa conseguiu acessar o mercado de capitais ou simplesmente obter um crédito por longo prazo, no caso, de cinco anos. Ulisses Matiolli Sabará, um dos controladores da empresa, tem uma lista interminável de histórias sobre a dificuldade de obter capital de longo prazo. “Durante 20 anos, pelo menos, nós, uma empresa média e bem estruturada, vimos poucas ou nenhuma porta aberta para captar recursos a custos acessíveis. O dinheiro disponível está alocado em grandes empresas ou em startups”, diz ele. “Agora tivemos a grata surpresa de encontrar capital alinhado com os nossos valores”, diz. As debêntures pagarão uma taxa considerada elevada, de CDI mais 6,25% ao ano.

Os recursos servirão para abater dívidas bancárias contraídas com Safra e Bradesco para a construção de uma fábrica de clorito de sódio, em Santa Bárbara do Oeste (SP), que custou R$ 15 milhões. “Em 2017 solicitamos um financiamento ao BNDES que não saiu e acabamos nos endividando com bancos para terminar a construção”, diz Ulisses Sabará. Cerca de R$ 5 milhões ficarão como gordura para capital de giro da empresa.

O empresário explica que a empresa era uma importadora de clorito de sódio, matéria-prima para fabricar o dióxido de cloro, um agente bactericida não poluente e não cancerígeno. Além de ser usado no tratamento de água, é empregado, por exemplo, pela indústria sucroalcooleira. “Verticalizar a produção nos dá uma vantagem competitiva enorme. Poderemos vender no mercado local ou exportar o insumo”, diz ele. “Esperamos crescer com o aumento das concessões de água e esgoto à iniciativa privada.”

A debênture da Sabará recebeu o selo verde da Sitawi. “Foi a primeira emissão verde local do setor industrial”, diz Gustavo Pimentel, sócio da Sitawi. “Finalmente estamos chegando em tíquetes menores e fora do setor de energia, que domina esse mercado.” Outro papel de menor tíquete emitido neste ano foi o da Athon Energia, no valor de R$ 40 milhões. Houve outras quatro emissões com selo verde no ano no país até agora: AES Tietê (R$ 820 milhões), Taesa (R$ 210 milhões), Neoenergia (R$ 1,3 bilhão) e Celulose Irani (R$ 505 milhões).

Segundo Pimentel, no caso da Sabará, além da performance ambiental da nova planta, que opera com energia renovável, o produto em si foi relevante na concessão do selo. “Fora isso, há o benefício do fornecimento local que vai reduzir a importação e as emissões de carbono decorrentes.”

O papel da Sabará foi comprado pelas gestoras Polo Capital, Lakewood e Novero. Esta última destinará 100% da sua fatia para um fundo exclusivo da Wright Capital, gestora que administra o patrimônio de famílias que se comprometem a fazer investimentos de impacto sócio-ambiental positivo. “Temos feito um trabalho de ativismo junto aos gestores de recursos tradicionais para que estes passem a considerar critérios de ASG [ambientais, sociais e de governança] quando fizerem suas alocações”, diz Fernanda Camargo, sócia da Wright. “No caso da debênture da Sabará, além do retorno, da estrutura de garantias e da governança, encontramos uma empresa comprometida com a transformação social e ambiental.”

Para a Polo Capital, o selo verde não foi uma pré-condição para o investimento, diz o sócio Mariano Andrade. Pesou mais a questão de a Sabará ter um perfil de baixa volatilidade de receita, fato que reduz o risco de crédito do papel. “Mas nós vislumbramos um futuro não distante em que ‘green bonds’ serão negociados com prêmio. Por ora, a demanda dos investidores ainda é incipiente, mas, quando se trata de crédito de longo prazo, o selo verde é desejável porque não sabemos como o mercado vai mudar nesse período”, diz ele. Os R$ 9 milhões que a Polo comprou da emissão serão distribuídos em vários fundos da casa.

Leonardo Teixeira, sócio da Novero, diz que o prêmio mais salgado está relacionado ao fato de a Sabará nunca ter acessado o mercado antes. A tendência, acredita, é que as taxas caiam bem nas próximas emissões. A emissão é garantida por dois contratos de longo prazo com empresas de saneamento. A Sabará Químicos e Ingredientes é a principal empresa do grupo Sabará, que também controla a Beraca, uma das principais fornecedoras de ingredientes naturais da biodiversidade brasileira para a indústria cosmética. Também do grupo, a Concepta fornece ingredientes naturais da biodiversidade local para o setor de alimentos. No ano passado, o grupo faturou R$ 200 milhões.

 

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