Juro básico deve cair ao menor nível em 30 anos, apostam economistas, mas taxas bancárias seguem elevadas

Por Alexandro Martello, G1, Brasília

03/12/2017 05h00

Expectativa do mercado financeiro é que na quarta-feira Copom reduza taxa Selic de 7,5% para 7% ao ano, menor patamar da série histórica do Banco Central. Juro menor estimula o crédito.

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se reúne na próxima quarta-feira (6) e deve reduzir a taxa básica de juros da economia dos atuais 7,5% para 7% ao ano, segundo aposta dos economistas do mercado financeiro.

Se confirmado, esse será o menor patamar para a taxa Selic desde o início da série histórica do Banco Central, em 1986, ou seja, em mais de 30 anos.

Até então, a menor taxa de juros básica que se tem notícia, de 7,25% ao ano, havia sido registrada entre outubro de 2012 e abril de 2013.

Economistas do mercado financeiro, porém, trabalham com séries históricas mais antigas que a do Banco Central.

Segundo estudo de Maurício Molan, do banco Santander, em 7% ao ano, a taxa interbancária “overnight” (muito próxima à taxa básica, Selic) “certamente seria a menor dos últimos 60 anos”.

“O menor juro da história republicana foi, provavelmente, algo próximo a 5%, predominante no início do século passado”, acrescentou.

Para o economista do Bradesco, Igor Velecico, esse patamar para a taxa básica da economia seria o mais baixo desde o início da série histórica da instituição financeira, em 1974. “É essencialmente a taxa mais baixa desde sempre”, declarou.

Apesar de o juro básico ser o mais baixo em décadas, a taxa real (calculada após o abatimento da inflação estimada para os próximos 12 meses), utilizada para comparações internacionais, ainda segue elevada, segundo cálculos do MoneYou e da Infinity Asset Management.

O patamar atual de 7,5% ao ano, por exemplo, representa juros reais pouco abaixo de 3% ao ano. Em 40 economias pesquisadas, entretanto, a taxa média está negativa em 0,2% ao ano.

Juros bancários altos

Mesmo com a taxa Selic próxima do menor patamar em décadas, os juros bancários seguem em níveis elevados para padrões internacionais, segundo economistas.

Em outubro deste ano, segundo informações do BC, a taxa média de todas as operações (pessoas físicas e jurídicas, com recursos livres) somou 43,6% ao ano – muito acima da taxa básica.

Para empresas, os juros bancários médios ficaram em 23,3% ao ano em outubro, enquanto que, para pessoas físicas, atingiu 59,5% ao ano – com algumas linhas de crédito em patamares bem mais elevados, como no cheque especial (323,7% ao ano) e no cartão de crédito rotativo (337,9% ao ano).

Segundo o diretor executivo de Estudos e Pesquisas Econômicas da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel José Ribeiro de Oliveira, os juros bancários brasileiros são, de fato, elevados na comparação com outros países.

Ele diz que, em economias mais desenvolvidas, os juros, em algumas linhas de crédito, chegam ao patamar de 3% a 5% ao ano. As taxas mais caras, afirma, podem atingir mais 10% ao ano – mesmo assim bem abaixo do patamar dos juros cobrados pelos bancos brasileiros.

“A Selic [juros básicos] é um dos componentes da taxa de juros bancária. Em uma comparação, por exemplo, com uma camiseta, ela tem tecido, costureira, marketing da loja, funcionários, tem uma série de custos que são cobrados. Quando vai fazer um financiamento, seja consignado, imobiliário, a Selic é um dos itens que compõem o custo do dinheiro”, explicou.

Entre os itens que compõem o custo do juros bancário no Brasil, estão:

Custo de captação: quanto os bancos pagam pelos recursos, valor que está ligado ao juro básico da economia, a Selic, fixada pelo Banco Central;

Depósitos compulsórios: recursos que os bancos têm de deixar parados no BC, para ajudar no controle da inflação;

Cunha fiscal: impostos cobrados, que são repassados pelas instituições financeiras;

Despesas administrativas: custo de processos e com funcionários dos bancos;

Risco: taxa de inadimplência das operações;

Margem líquida: lucro das instituições financeiras.

Entre esse itens, o executivo da Anefac observa que, de fato, há alguns problemas que encarecem o crédito no Brasil em relação a outros países, como, por exemplo, o alto nível dos depósitos compulsórios, atualmente em cerca de 45% do volume de recursos dos bancos – patamar muito acima de outras nações.

Além disso, ele também cita a taxa de inadimplência, que somou 5,4% de todas as operações de crédito em outubro. “A inadimplência pesa muito, pois há dificuldade de retomar um bem”, disse.

Concorrência e lucro no sistema bancário

O diretor da Anefac, Miguel Ribeiro, avalia que o peso do lucro dos bancos na taxa de juros, de cerca de 30% do spread bancário (que é diferença entre o que os bancos pagam pelos recursos e o que cobram do seu cliente), é “muito alto” e contribui para que a taxa cobrada dos consumidores também seja elevada.

Ele observa que houve, nos últimos anos, incorporação de bancos por outras instituições – como a aquisição do Citibank pelo Itaú; do HSBC Brasil pelo Bradesco; e a fusão do Itaú com o Unibanco – diminuiu a concorrência no sistema bancário brasileiro.

Dados do BC mostram que os quatro maiores conglomerados bancários – Itaú-Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal – detinham, no fim de 2016, 78,99% de todas as operações de crédito feitas por instituições financeiras no país. Em 2007, eles tinham 54,6% de todos empréstimos.

Estudo da Consultoria Economática (abaixo) mostra que a mediana da rentabilidade sobre o patrimônio (ROE) dos bancos brasileiros supera a das instituições norte-americanas desde 2005, com exceção de 2014 – considerando bancos com ativos acima de US$ 100 bilhões.

O que dizem instituições financeiras e o BC

O economista do Santander Maurício Molan diz que os “spreads” (diferença entre o que os bancos pagam pelos recursos e o que cobram dos clientes) brasileiros são mais elevados do que o resto do mundo por conta da taxa de inadimplência, dos tributos cobrados e dos compulsórios.

“O nível de inadimplência é mais alto, a dificuldade de execução [das garantias] é maior, carga tributária é mais intensa, e os compulsórios são muito mais elevados”, declarou, explicando que tudo isso se reflete nas taxas de juros cobradas pelos bancos.

Para a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), o “maior custo de inadimplência” em relação a outros países, com elevado volume de provisões (recursos apartados para fazer frente a eventuais perdas), a dificuldade de recuperar garantias, baixa segurança jurídica e informações insuficientes de crédito, explicam o “spread” maior no Brasil.

O Banco Central, por sua vez, informou que tem se empenhando para produzir uma redução estrutural do custo do crédito. “O primeiro canal, pelo qual trabalhamos para isso, é o incentivo à concorrência, com base nas medidas que exemplifiquei anteriormente”, avaliou.

Para aumentar a competição bancária, a instituição informou que tem adotado ações como a adoção de uma regulação mais simplificada para bancos menores, diminuindo o custo regulatório, o incentivo às chamadas “fintechs” (termo usado para inovações e uso de novas tecnologias por empresas do setor financeiro) e a “democratização da informação”.

O órgão também informou que está atuando para melhorar o sistema de garantias das operações de crédito, e citou ainda as medidas tomadas para reduzir os juros do cartão de crédito rotativo.

Crédito bancário começa a reagir

Dados do Banco Central mostram que, com o fim da recessão e com a queda dos juros bancários nos últimos meses, apesar de ainda estarem altos para padrões internacionais, as operações de crédito dos bancos começam a reagir.

Segundo dados do Banco Central, o volume total do crédito bancário (estoque) continua registrando queda na parcial deste ano, até outubro – quando recuou 1,7%. Isso depois de cair 3,5% em todo ano passado.

Entretanto, a autoridade monetária observou que as novas operações de crédito (concessões) por parte dos bancos cresceram 3,4% no segmento livre (sem contar habitacional, BNDES e rural) nos dez primeiros meses do ano.

Para Igor Velecico, do Bradesco, o crédito já começou a melhorar neste ano e anda “razoavelmente bem”. Ele cita dados de concessões nos últimos meses, que mostraram alta, em linha com o reaquecimento da economia.

“O fluxo [concessões mensais] começa a crescer antes e dados de estoque [volume total de crédito na economia] demoram mais pra aparecer”, avaliou.

Maurício Molan, do Santander, concorda que o crédito bancário está melhorando. “As concessões de crédito livre para pessoa jurídica nos últimos três meses, contra três meses do ano anterior, cresceu 5%. Já é mais do que a inflação. Minha leitura é que o crédito já se recupera (…) Começa a ver o movimento de alta nas concessões. O estoque começa a ver isso com defasagem”, declarou.

Mesmo com a incipiente recuperação do crédito bancário nos últimos meses, dados do BC mostram que o volume total de empréstimos na economia brasileira continua bem abaixo quando se compara com outros países.

Em outubro, o crédito bancário representou 46,9% do PIB no Brasil. Em países mais desenvolvidos, como Estados Unidos, Japão, Reino Unido e Chile, por exemplo, o crédito bancário supera a marca dos 100% do PIB.

Questionado pelo G1 se o crédito bancário poderá superar a marca dos 100% do PIB de forma segura no futuro, o Banco Central avaliou que é preciso “perseverar” nos ajustes e reformas na economia brasileira a fim de propiciar reduções sustentáveis no custo do crédito (juros bancários).

“Com o crédito mais barato, as famílias e as empresas poderão utilizar um volume maior de crédito sem que isso pese no orçamento. Assim, a economia brasileira poderá conviver com maiores volumes de crédito, sem comprometer a segurança do sistema financeiro”, concluiu a instituição.

 

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