IGP-M cai, com desaceleração chinesa como pano de fundo

Valor Econômico

Por Bruno Villas Bôas | Do Rio
11/09/2019 às 05h00

 

Com a desaceleração do crescimento da economia chinesa de pano de fundo, o Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M) caiu 0,60% em sua primeira leitura de setembro, refletindo a baixa nos preços de commodities minerais e agrícolas no atacado, mostram dados divulgados ontem pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

Na primeira prévia de setembro, o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) recuou 0,95%, resultado próximo ao registrado no mesmo período de agosto (-1,02%). A baixa do indicador em setembro foi explicada pelos preços mais baixos de matérias-primas brutas (-2,37%), com destaque para minério de ferro (-12,40%), aves (-3,04%) e leite (-3,14%).

Para André Braz, economista da FGV, o comportamento do minério de ferro reflete, em parte, a “devolução” do preço da commodity, que havia subido fortemente no início do ano após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG). Outra parcela do comportamento, porém, está ligada ao contexto da economia chinesa.

“O preço do minério de ferro chegou a acumular alta de 100% em 12 meses. Agora, o avanço está em 36%, após as quedas recentes. Parte dessa desaceleração tem a ver com o menor apetite chinês por commodities”, disse Braz, para quem a desaceleração do gigante asiático tende a exportar deflação para o mundo via commodities.

“Claro que outros fatores ajudam a explicar a deflação do IGP-M. Temos safra recorde e baixo crescimento da economia doméstica. São fatores, inclusive, que têm limitado o repasse da desvalorização cambial para os preços domésticos. Mas o desaquecimento da China, claro, se materializa pelo preços de insumos.”

Essa percepção sobre a China exportar deflação para o resto do mundo – e para o Brasil – foi alimentada por números divulgados anteontem à noite pelo país asiático. Os preços nas portas das fábricas chinesas recuaram 0,8% em agosto ante agosto de 2018, a baixa mais acentuada em três anos.

Maurício Nakahodo, economista do MUFG Brasil, diz que a perspectiva de a China exportar deflação é um tema que vem à tona de tempo em tempos. Segundo ele, a menor demanda chinesa tem pressionado preços de commodities, assim como as tensões comerciais com os EUA. Em agosto, o índice S&P GSCI de commodities recuou 5,6%.

“A China deve crescer pouco acima de 6% neste ano e no próximo ano, como vêm mostrando as projeções do Fundo Monetário Internacional [FMI]. É uma desaceleração gradual, em bom ritmo, que pode suportar a demanda e preços de commodities. O risco é se houver uma desaceleração mais acentuada”, acredita Nakahodo.

Leonardo França, economista da Rosenberg Associados, lembra que o relacionamento comercial do país com a China é imenso, o que também contribui para abrir um canal de transmissão de preços. Em 2018, o Brasil exportou US$ 66,6 bilhões para a China, especialmente commodities (soja, petróleo, minério de ferro e celulose).

“A deflação da leitura do IGP-M do primeiro decênio não foi mais intensa porque a desvalorização do real frente ao dólar contrabalanceou a desvalorização de commodities. Foi o caso especialmente de grãos, como soja e milho no período.”

Com peso de 30% no IGP-M, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) apontou deflação de 0,09% no primeiro decêndio de setembro, ante ligeira alta de 0,04% em igual período de agosto. Três das oito classes de despesa registraram decréscimo em suas taxas de variação, com destaque para o grupo Alimentação (-0,06% para -0,89%).

Braz espera que o IGP-M do mês fechado fique mais próximo da estabilidade por causa da aceleração de preços de produtos agrícolas como soja em grãos (que passou de -1,93% em agosto para 8,18% em setembro) e milho (de -3,04% para -0,65%). Segundo ele, são movimentos do câmbio e ofuscados pelo minério de ferro em setembro.

 

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